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Nas areias finas do deserto

Nas areias finas do deserto
Esculpidas pela força do vento
Rajadas de ventos escultoras
Rasgam dunas debaixo do firmamento


Céu nebuloso com estrelas
Pintado de azul-escuro
Pousa sobre as areias do deserto
Vazio de porto seguro

Ventos que alisam dunas
Penteiam como cabelos
Sulcam lacunas
Desenham com zelo


Naquele deserto
Pousam sonhos
De mar aberto
Para paisagens e desenhos


Brilharão as estrelas no firmamento
Sempre que encontrar o vazio
Nas paisagens desérticas
Onde fecho os olhos e sorrio

Numa onda de contemplação
No deserto do silêncio
Ouço o meu coração
Em sinais de bom prenúncio

As estrelas anunciam
O espaço infinito
Pousado sobre finas areias
Distante do erudito


Fina camada alaranjada
Que se movimenta todos os dias
Pela acção do vento
De uma só rajada


A vida também é assim
Composta de beleza
Um mundo por descobrir
Para viver em comunhão
Com a natureza
Voar com leveza
Por entre as estrelas


03-03-2021

João Pires

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Ondas vagabundas

Corpos que se misturam
Respiração entrecortada
Beijos de pele
Lança uma cartada

Movimentos suaves
Como o baloiço das ondas
Em peles ardentes
Ondas vagabundas

Luxúria para surpreender
Desejo para saciar
Vontade de te aprender
Lábios frementes para alisar

Vestidos de néctar
Perfumes insolentes
Para te deleitar
Saltar tabus existentes

Corpos que se entregam
Sem fronteiras
Pela atracção se aproximam
Até perder estribeiras

Corpos que se agarram
Como quem celebra a vida
Suspiros que sopram
Numa dança atrevida

01-03-2021

João Pires

foto: wallpaperflare.com

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Rosto humano

Rosto humano 
Desanima sem voz 
Acorda numa atitude feroz 
Morre sempre de forma atroz 
 
Rosto humano pensativo 
De olhar positivo 
Para onde levas os pensamentos 
Saltam ideias aos ventos 
 
Rosto humano belo 
Seduzes com um simples olhar 
Palavra única de apelo 
Nunca paras com vagar 
 
Rosto humano sofrido 
Marcas de guerra 
Cicatrizes se permitido 
Morte certa na serra 
 
Rosto humano de Deus 
Sofrimento na Páscoa 
Imploro aos céus 
Um rosto de pessoa 
 
Rosto humano sereno 
Como dentro do lago 
Num barco pequeno 
Simples gesto de afago 

26-02-2021 

João Pires

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O Paredão

Quebra as ondas do mar
Solta-se a bruma
Cheiro de salga no ar
Ondas plenas de espuma

Estrondo das ondas no paredão
Ritmadas pela natureza
Num forte encontrão
Contra a barreira da dureza

Salpicos de mar
Chuva salgada
Nem penses em caminhar
Sobre aquela estrada aberta

Se os céus te avisarem
Que os mares estão zangados
Imagina se causarem
Perdas dos empolgados

Gostas que molham o rosto de razão
Arriscas um pouco mais
Para sentires o furacão
Maior juízo têm animais

Pedra escorregadia
Caminho húmido
Deslizas os pés com ousadia
Sem soltar um gemido

22-02-2021

João Pires

O Paredão, Dorset, Inglaterra, foto de Ross Hoddinott

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Mãos que emergem das árvores

Mãos que emergem das árvores
Sustentam a vida com leveza
No meio de flores
Cercada pela natureza

Quão frágil a vida será
Se apenas uma mão tombar
Alma alguma viverá
Sem que possa voltar a amar

Como seria bom sonhar
Contigo naquele caminho
Debaixo de qualquer luar
Palavras suaves em tom pianinho

Montanhas, florestas e rios
Vales, céu e nuvens
Caminhos em desequilíbrios
Cegamente procuro as margens
Conduzido por mãos de outras paragens

20-02-2021

João Pires

imagem: Ponte Ponte Dourada, Vietname, Linh Pham

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Vida em Abundância

Transforma a vida em abundância
Descobre dentro de ti a alegria 
Desata a rir como na infância 
Na mística da alquimia 

Abundância para viver a vida 
Sempre a dar e receber 
Numa corrida atrevida 
Gole de água beber 

Viver intensamente 
Com todas as capacidades 
Servir primeiramente 
Sentir infinitudes 

Abundância da vida 
Enquanto for vivo 
Sol que nasce 
Lua que desce 

Abundância na tristeza 
Viver com clareza 
Viver com desapego  
Sem ser sôfrego 

Como seria viver 
Sem ameaças ou medos 
Sem fomes no mundo 
Acabando com os segredos 

Viver na abundância 
Sem tricas ou ciúmes 
Nada de arrogância 
Viver todos os segundos 

Coração de puro potencial
Vive num manancial 
Liberta-se da prisão 
Sem qualquer rima nem imprecisão 

15-02-2021 

João Pires

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Quero sorrir ao mundo

Quero sorrir ao mundo 
Neste estando de insanidade 
Quando corre o cheiro nauseabundo 
Procuro no lixo a verdade 
 
Quero gritar num simples esgar 
De uma simples dor 
Da janela me quero libertar 
Não tenho a quem dar amor 
 
Nesta prisão solitária 
Passo os dias a comer 
Com vida sedentária 
Quero saltar lá para fora e correr 
 
Correr pelos campos fora 
Debaixo de chuva forte 
Nuvens pesadas e cinzentas 
Deambular sem norte 
 
Que adianta o sol brilhar 
Se a pandemia não deixa caminhar 
Se esta loucura não permite sonhar 
Mas eu quero viver, voar e escrever. 

12-02-2021 

João Pires

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Quando o amor

Quando o amor
Ultrapassa o tempo
Vence barreiras
Quebra o gelo
Une corações

De um beijo só
Dá vida num aperto
Mesmo em tempos difíceis
No oásis no deserto
Se unem almas dóceis

Perante olhares incrédulos
Mentes parcas
Sentimentos únicos
Em peitos gémeos

Que importa a chuva
Se o beijo é húmido
Que importa o sol
Se o coração não está seco

Sangue a bombar nas veias
Numa corrente desenfreada
Ou num suave deslizar
De quem já caminhou a sua jornada

Ela agarra-te pelos braços
Quando já não tens forças
Enquanto houver carinho
Haverá sempre sonhos e asas

06-02-2021

João Pires

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Esbanja hoje o teu sorriso

Esbanja hoje o teu sorriso
Por sentires a vida na pele
Como um abraço vigoroso
Assim o coração o impele

Poupa as tuas lágrimas para um dia mais tarde
Espalha as tuas lágrimas
Se forem de prazer
Verte as tuas lágrimas
Se forem de felicidade

Poupa as tuas palavras para outro dia
Ouve os sons da natureza
As risadas das crianças
O canto dos pássaros
O gotejar da chuva
O rugir do vento
O suave balançar das folhas nas árvores
Os rugidos do sexo esfomeado
Os sons do amor

Se as palavras são de revolta
Em tempos de pandemia
Prende a língua solta
Exulta de alegria
Porque o sangue corre nas veias

Tempos estranhos, que se tornam familiares
Confinamento em casa
Sem voos regulares
Como pássaro sem asa
Que o sonho possa voar
Sem barreiras nem limites
A folha possa balançar
Eu consiga dançar

3 Fev 2021

João Pires

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Entre a vida e a morte

Entre a vida e a morte 
Escondem-se pensamentos 
Habitam sonhos 
Vagueia a imaginação 
 
Entre a vida e a morte 
Rasgam ódios 
Lutam orgulhos 
Matam invejas 
 
Entre a vida e a morte 
Batem as horas 
Procuram-se caminhos 
Navegam por mares 
 
Entre a vida e a morte 
Nascem bebés 
Escrevem poemas 
Declaram amores 
 
Entre a vida e a morte 
Surgem pandemias 
Matam os ricos e pobres 
Também os incautos 
 
Entre a vida e a morte 
Dou um grito de alegria 
Salto de energia 
Beijo de paixão 
Amo de verdade 
 
Entre a vida e a morte 
Reina o orgulho 
Imperam os direitos 
Manda o eu 
 
Entre a vida e a morte 
Sou grão de areia 
Sou grato por estar vivo 
Sou grato por sorrir 

30-01-2021 

João Pires

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