poesia

És ponte para sonhar

És ponte para sonhar
No brilho dos teus olhos
Que se esvai até ao mar

O azul do teu brilho
Do final do dia
Com o sol a expirar

Chega a noite
Envolta no mais belo cenário
Debaixo das nuvens e o casario

O teu olhar brilha
Como as luzes que batem no rio
Cortada pela maré baixa
Esvaziada de água desaparecida

As luzes da ponte
Indicam o caminho
Para cruzar os céus
Em busca do teu carinho

És ponte para eu sonhar
Na tua alegria
Pura a transbordar
Palavras doces

O azul do teu brilho
Ilumina o céu da noite
Basta acender uma luz
Para saber que és ponte

7 Set 2021

João Pires

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poesia

Daquela janela

Daquela janela vejo 

Jardins encantados 

Princesas formosas 

Borboletas, tulipas e rosas 

Naquela janela 

Sonho com belas formosas 

Violetas, lagos e jasmins 

Pinheiros, carvalhos e frondosas 

Do muro da janela 

Salto para o parque sem fim 

Oceanos salgados 

Marés sem tempo 

Ninfas à solta no bosque 

Subo até àquela janela 

Para te ver e encontrar 

Coelhos que saltitam por ali 

O canto dos pássaros ecoa 

Dentro daquela janela 

Sonhamos com dias melhores 

Fazemos amor ao luar 

Ao som do pio das nocturnas 

As ondas do mar para embalar 

Num vaivém de prazer 

31-08-2021
 
João Pires

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short story

Acordou cedo, apesar de estar em férias

Acordou cedo, apesar de estar em férias, tomou o pequeno-almoço, foi passear o cão e rumo em direcção à praia. Daquela vez seguiria sem o Charlie, pois apesar de ser uma companhia agradável e da maioria das pessoas lhe fazerem sempre uma festa na cabeça, ele gostava de ficar sentado na esplanada virado para o mar e o cão por vezes dava sinal de querer dar mais um passeio. Aqueles pequenos ímpetos do animal, cortavam o ritmo da leitura.  

Aqueles momentos traziam-lhe boas recordações da sua juventude. Ainda era Primavera e já percorria 7 quilómetros desde casa dos seus pais até à pequena praia dos surfistas, a Praia Atlântico em Valadares. A época balnear ainda não havia iniciado mas os dias estavam abertos. O pequeno bar em madeira na zona alta das dunas estava abrigado a norte dos ventos fortes, tinha um pavimento em madeira. Encostava a sua bicicleta à parede em madeira virada a sul e sentava-se ao seu lado para folhear o pequeno livro que levava consigo. Falava de um pequeno anjo que estava encarregado de levantar as faltas humanas para as apresentar no dia final perante o divino tribunal, durante o julgamento anual da humanidade. Aquele anjo fazia parte de um grupo mais alargado de seres angélicos que haviam decidido viver entre os humanos. Aquela história fazia-o transportar para o reino da fantasia, muito embora tocasse a realidade dos humanos. Aquela leitura debaixo de sol macio capaz de dourar a pele, acompanhado pelo som das ondas do mar proporcionava momentos de puro prazer, apesar de ler pouco frequentemente.  

Passadas duas horas, quando o sol se tornava intenso ao ponto de queimar a pele, regressava a casa, depois de enfiar o livro na mochila. 

São recordações que permaneciam consigo durante décadas. 

Regressado aquela sexta-feira de 2021, encontrava-se sentado numa mesa da esplanada frente à praia da Madalena, em cima de um pavimento em madeira. A manhã estava enevoada.  

Às 10 da manhã o termómetro registava 23ºC e estava previsto subir até aos 27ºC. O nevoeiro não deixava perceber o calor do sol. As pessoas iam chegando para ocupar os lugares ainda vagos na esplanada.  

Ainda se ressentia das pernas, nos músculos gémeos, depois de terem pedalado alguns quilómetros. Ele já não pedalava há algum tempo e apesar de correr regularmente, não impediu de ficar com dores nos gémeos. Só ao fim de alguns dias é que as dores começaram a atenuar. 

Teria que continuar a treinar, pois ele e a sua mulher queriam percorrer o circuito da antiga linha ferroviária que liga Santa Comba Dão até Viseu, a ecopista do Dão com 49 quilómetros. 

No dia anterior haviam conciliado o seu passeio com o cão. Assim decidiram rumar a norte até à praia onde os animais de companhia são admitidos, entre a Praia Suave Mar Norte e Cepães, em Esposende. 

Chegados ao destino, tomaram um café num pequeno bar situado próximo da praia e no início do caminho a norte de Esposende. Pediram a direcção da praia e seguiram pelo caminho até ao sinal com um cão.  

“Vamos à praia? Uma praia adaptada à sua mascote!” Dizia a placa informativa com as regras e as recomendações a observar.  

Chegados ao areal perceberam que o nevoeiro ainda estava a levantar. Havia alguns cães a percorrer a praia junto aos seus donos. O areal era composto por uma faixa de seixos o que dificultava a chegada até à água se não fossem usados chinelos ou sandálias. O Charlie fartou-se correr à volta deles em sinal de agradecimento e como forma de demonstrar a sua alegria. Em seguida foi ter com um cão que transportava uma pequena bola na boca e que não dava sinais de a querer partilhar com outros cães. Ele percebeu de imediato que deveria ter levado um pequeno brinquedo para o seu cão. Mesmo assim o animal divertiu-se a fugir com o saco da tenda de praia. Ele mostrou um pau e atirou-o para longe à sua frente, pelo que desistiu do saco para ir em busca do novo brinquedo. O vento corria fraco e o nevoeiro estava levantado. Eram quase 3 da tarde, quando a sua filha deu sinais de fome. Decidiram voltar ao bar das Dunas para almoçar. Deixaram o guarda-sol e a tenda de praia, depois de terem recolhido as toalhas e os sacos de praia. O Charlie acompanhou-os e sentaram-se numa mesa na zona exterior ao bar, embora abrigada do vento e sol por estrutura em vidro. O cão deitou-se ao lado da mesa depois de beber um pouco de água, pois estava morto de cansaço e aquela era a sua hora para descansar. Mais tarde levantou-se para cumprimentar uma criança acompanhada pelos seus avós, que se sentaram na mesa ao lado. As festas na sua cabeça não terminavam e o cão sentia-se no melhor dos mundos.  

Ele havia pedido um prego no pão que estava delicioso. A sua filha pediu uma saborosa tosta com queijo, por ele comprovada depois de a ter provado. A salada de frango da sua mulher estava igualmente apetitosa. Eram já 15h30 ainda saboreavam a refeição debaixo daquele alpendre, que estabelecia a separação do espaço interior do bar e a zona exterior ainda equipada com uma pequena fila de mesas, para quem quisesse efectivo ar livre debaixo de sol directo.  

Para terminar ele comeu uma tarte de lima e a sua filha comeu um gofre feito de massa confeccionada com farinha, açúcar, manteiga, ovos e leite e prensada, com uma bola de gelado por cima. Depois dos cafés, regressaram à praia pelo caminho já conhecido. Passavam por uma zona de pinheiros mansos que conferiam sombras convidativas para dormitar em cima de uma rede. O caminho prosseguia para norte e era percorrido por várias bicicletas, o que dava a entender tratar-se de trilho que valia a pena descobrir.  

Regressaram tarde a casa. O seu filho ainda não havia regressado das curtas férias com os seus amigos na quinta dos avós. Quando eles chegaram a casa, perceberam que a porta havia sido fechada à chave pela empregada. Provavelmente ele não tinha levado a chave de casa consigo e incrivelmente havia deixado o seu telemóvel em casa. Incrivelmente não. O seu filho estava ligado pelas redes sociais aos seus amigos, mas no dia da partida para a quita, havia deixado o telemóvel em casa. Quando ele já estava na estrada com o seu filho e dois amigos, ele lembrou-se que o telemóvel tinha ficado esquecido em casa. Ele explicou ao seu filho que não era assim tão grave esquecer o telemóvel em casa. Teria uma oportunidade para provar que seria capaz de sobreviver sem telemóvel. Ele registou o número de telemóvel dos seus dois amigos que seguiam no carro, pois assim teria sempre dois pontos de contacto com o seu filho. Chegados à quinta, já esperava por eles uma amiga debaixo de um pinheiro manso. 

— Tiago, estás com uma camisa muito gira. – Disse ela em jeito de cumprimento. 

Ele respondeu com um sorriso. Estavam ansiosos por se instalar na quinta que ficaria por sua conta pela primeira vez na vida. Ele não quis atrapalhar nem interferir naquilo que teria que depender da organização daquele pequeno grupo. Pediu para eles retirarem as malas, bebidas e comida. Lembrou que teriam que colocar os frescos no frigorífico e despediu-se depositando um beijo na face do filho. Desejou uma boa estadia e retirou-se. Logo à saída encontrou o pai do Ivo.  

— Olá Mário, como vais? Eles já estão instalados por sua conta e risco. Terão que saber desenvencilhar-se.  

— Sim, claro. – Respondeu o pai. 

Seguiu caminho em direcção à auto-estrada, acompanhado pelos seus pensamentos. Será que ele ia dar conta do recado? O seu filho estava prestes a completar 17 anos, teria que aprender por sua conta. Teria que entender-se com os seus amigos. Ele sempre quis passar uns dias na quinta dos avós, com o seu grupo de amigos. Os pais foram protelando, até ao final dos exames. A partir daquele momento era inevitável. Era impossível recusar após meses de esforço de estudo. 

Durante os dias da ausência do Tiago, aproveitaram a boa companhia da Maria. Compraram a sua própria bicicleta pela primeira vez. Ela tinha ficado sempre com as bicicletas do irmão. Andar de bicicleta era um gosto comum a toda a família. O último passeio havia durado 38 quilómetros e no regresso a puxar pelos pedais. A sua filha dava luta na pedalada e ele competia para a acompanhar. Dali as dores nos músculos das pernas. Mas a partir daquele momento, iriam procurar fazer saídas de bicicleta mais regulares. Havia pistas dedicadas às bicicletas que permitam percorrer paisagens ninfas à beira do rio ou nas serras, contudo sem penar para vencer grandes altitudes, pois parte das ciclovias estavam assentes em linhas antigas e desactivadas dos caminhos-de-ferro. 

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Books

Apresentação do livro Amar em Bagos Douro de João Pires

A presenciar a 3ª sessão do Letras ao Sábado, iniciativa do Centro Cultural de Rio Tinto, esteve o autor João Pires com o seu novo romance: Amar em Bagos Douro.

De plateia e corações cheios, a apresentação realizou-se na tarde de 13 de janeiro de 2018 no Auditório Condomínio das Artes.

O evento, moderado pela Chefe da Divisão da Cultura, Teresa Couceiro, a cada 2º sábado do mês, pretende enaltecer os novos escritores e os seus livros, de forma a que a arte literária seja partilhada e divulgada entre a comunidade.

Assim, Amar em Bagos Douro convida-nos a deambular pé a pé com duas personagens que partilham a paixão entre si e pela cidade do Porto.

João Pires enveredou pelas artes da escrita por mera inspiração conseguida através da leitura dos clássicos portugueses. Daí decidira arriscar-se e descobrira um enorme prazer na passagem das palavras ao papel.

Agora expõe o seu romance contemporâneo, mas também se interessa pela poesia, tendo realizado um curso de escrita criativa e criado o seu próprio blogue, intitulado Tinta Permanente (https://tinta-permanente.blogspot.com).

“Porque um livro não é uma corrida”, nas palavras do autor, João Pires completou-o ao fim de três anos de estudo e envolvência com a região nortenha, com os seus rios, quintas, vinhos, e todos os pecúlios que tão bem caracterizam o nosso Porto e Norte de Portugal.

Amar em Bagos Douro “é precisamente um desafio na escrita” ao tomar a abordagem curiosa de se qualificar num romance-turístico: o leitor é convidado a visitar os locais ao lado das personagens que lá vivem a história, permitindo-lhe adquirir um novo olhar e apaixonar-se de novo pela cidade Invicta.

O escritor afirma que a narrativa “tem capacidade para vir a ser traduzida para outras línguas” e garante que quem não conhece o território fica curioso para o visitar, tendo já leitores de outros pontos do país que terminaram o romance e planeiam vivenciar a cidade portuense.

Texto original de:
Nadine Santos Press Release and Photography
Nós Aqui – Gondomar Informação
13 de janeiro de 2018

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excerto do livro romance

AMAR EM BAGOS DOURO

(…) aos turistas mais do que os pontos obrigatórios – responde Inês. É uma forma de dar a conhecer a cidade através dos olhos de quem vive nela continuou Inês. São pessoas de diferentes faixas etárias e formações em arquitectura, história, música, artes, pintura, fotografia, entre outras, que se dedicam a mostrar a cidade a quem vem de fora. Continuaram a passear pelos jardins do Palácio, apreciando as magníficas panorâmicas sobre o rio e sobre a cidade, que os miradouros espalhados em posições estratégicas oferecem.

Entretanto o sol desaparece no horizonte e resta um azul forte no céu, casado com o laranja vívido do crepúsculo, enquadrado pela ponte da Arrábida.

– Gostas de mim? – Perguntou Inês.
– Claro que sim. Amo-te do fundo do meu coração – respondeu, segurando-lhe nas mãos. Aquela paisagem completava o cenário de romance. Trocavam olhares apaixonados. Henrique beijou-a com total arrebatamento. Abraçou-a de forma terna. Inês pousou a sua cabeça no ombro de Henrique e apreciaram aquele momento de final de tarde. Henrique pegou na pétala de uma flor e deslizou suavemente pelo pescoço de Inês. Ela soltou um breve sorriso.

– Estás a fazer-me cócegas – disse, sentindo arrepios.

excerto do livro AMAR EM BAGOS DOURO de João Pires

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poesia

Poema por Elisabete Coelho

Palavras

Palavras
dizes-me tu, como quem nada tem a dizer.
Chegas de mansinho e sussurras,
ao meu ouvido,
palavras doces como mel.
Entre uma palavra e outra, encostas-te a mim
e fazes do meu ser
o teu poema perfeito.

Palavra de honra que não preciso das tuas palavras,
quando nos teus olhos te consigo ler
e do teu sorriso beber
todo o néctar que tens
para me dar.

Chega.
Não digas mais nada.
De que valem as palavras
se são os teus actos que mais me falam?
E é tão bom saber-me assim,
completa,
sem palavras, mas repleta
de acções
e reacções
do nosso amor!

Elisabete Coelho

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poesia

Para nadar nas águas cristalinas

Para nadar nas águas cristalinas
Terei que caminhar longos passos
Atravessar dunas e corais
Suplantar passadiços em forma de terraços

Procuro pela sereia escondida na maresia da manhã
Ouço tambores e sirenes de navio
Por entre a névoa que toma dois céus
Pareceu ouvir a voz da musa num arrepio

Continuo a caminhar no chão arenoso
Que se estende em direcção ao mar
Conchas, seixos e algas se atravessam
No meu destino para te encontrar

Por aquele mar adentro
Se ouve o marulhar da maré baixa
O grito das gaivotas em busca de peixe
Calcorreando a areia molhada
Para te encontrar numa pedra sentada

Teu olhar me encantou
Numa inspiração daquela manhã
Mas quando o sol levantou
Logo percebi que não estavas lá

Serás sonho meu
Enquanto houver maré
Voltarei a nadar nas águas cristalinas
Até perder o pé
Na esperança de voltar a sonhar contigo

29-07-2021

João Pires

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Tinham terminado duas partidas de bisca

Tinham terminado duas partidas de bisca,, tendo como grande entusiasta a filha que gostava imenso de jogar às cartas com os pais. O cão estava deitado ao lado da mesa de jogo, como que a fazer companhia. Tinha um olhar relaxado e satisfeito. Satisfeito porque havia enganado os seus donos com direito a repetir a sua dose de ração seca. Ele havia descido as escadas e tinha deitado no prato a porção de ração correspondente ao seu jantar. Mas a sua mulher desceu as escadas em seguida e voltou a deitar comida no prato do cão. O animal sentiu-se afortunado, porque tinha recebido nova dose de ração com sabor a salmão. Relaxado porque antes do jantar haviam dado um passeio junto ao rio com o cão. Há muito que não desciam ao rio na companhia do animal. Por vezes davam uma volta ao quarteirão, apenas para fazer as necessidades básicas para além de cheirar todos os pontos por onde passava. No passeio pedonal, passeava ao lado dos donos, que se sentiam seus avós, pois o filho é que havia adoptado aquele cão. Quando o cão foi para aquela família tinha apenas 4 meses e tinha um olhar vago, perdido e até triste. A sua mulher tinha uma enorme curiosidade em saber de onde tinha vindo aquele cão. A associação de acolhimento de animais, apenas informou que o cão havia sido encontrado perdido no meio da estrada. No entanto o cão já trazia nome. Charlie era um cão cheio de energia quando foi adoptado e escolheu o filho como mentor.

No início o filho ensinou bastantes truques e comportamentos. Mas com 4 meses o cão apenas queria brincar, destruir tudo à sua volta com os seus pequenos e afiados dentes. Uma vez mordeu a coxa dele, tendo esburacado as calças do seu fato. Ele ficou furioso e pensou que nunca havia pedido um cão nem queria suportar todas aquelas diabruras. Afinal, tinha sido o seu filho que havia prometido tomar conta do cão. Porém, passado algum tempo, todas as tarefas relacionadas com o cão como passear, dar comida, escovar o pêlo, levar ao veterinário e brincar um pouco com ele haviam sido passadas para o casal e para a filha que havia começado a dar-lhe um pouco de atenção. Talvez o cão sentisse falta daquele rapaz que pegou nele ao colo quando o viu pela primeira vez. O animal continuava a obedecer-lhe e ficava sempre à espera de receber uma instrução do seu dono, mas nunca perdia a esperança, mesmo que fosse por ele ignorado. Talvez fosse essa a sua característica mais marcante, talvez comum a tantos outros cães, Charlie nunca perdia a esperança. Os seus pequenos olhos vibravam sempre que algo o estimulava. Se fosse uma pequena brincadeira ao final do dia, altura em que se encontrava mais activo, então os seus olhos chegavam a brilhar, até faiscar de alegria. Era uma diferença absoluta em comparação com aquele olhar vago do início. Parecia que o cão se tinha ligado aquela família, conhecia todos os hábitos, sabia quando era momento para sair à rua e sabia também aceitar a saída dos donos sem o levar à rua. Conseguia interagir até ao limite das suas capacidades.

Por vezes ele ia para o escritório escrever e o cão trocava uma tarde de sol no jardim pela companhia do seu dono, deitando-se no sofá. Gostava particularmente de dormir a sesta a seguir ao período de almoço, deitava-se no escritório ou ao cimo das escadas, em cima de um tapete cinzento de pêlo macio e fofo. Escolhia sempre os locais mais estratégicos para perceber quando é que os donos iam sair para tentar a sua sorte num passeio. Outras vezes quando o calor apertava, procurava uma zona fresca da casa para descansar. Tinha que ter sempre água fresca à sua disposição, pois aquele cão tinha uma pelagem densa e lisa, que apesar de não ser volumosa, lhe provocava muito calor. Por aquela razão, sempre que o animal saía à rua no pico do calor, sofria um pouco com o calor e começava a arrastar-se, apesar de não recusar dar um passeio. Com o surgimento da pandemia, os cães também eram vistos como potenciais transmissores do vírus através das suas patas, o que caiu em descrédito passado algum tempo. Os autotestes serviam para testar os clientes à entrada dos restaurantes e hotéis. Aquela medida governamental havia deixado uma boa parte da população incrédula e dividida, porque a eficácia do teste não estava garantida. As salas dos restaurantes estavam vazias e as esplanadas aumentavam a sua área de atendimento. Os bares andavam pelas ruas da amargura e alguns corriam o risco de não abrir para sempre. A música, os amigos, convívio, o álcool, a sedução, a magia das luzes e o encanto da noite poderiam demorar a voltar.

Um dia que tal acontecesse, poderia ser noutros moldes, sem voltar aos tempos anteriores à pandemia, o que significava mais um sinal de mudança profunda na vida das pessoas. Os seus filhos provavelmente não iriam conhecer bares e discotecas tal como funcionaram até 2019. Principalmente o filho mais velho, sentia-se preso, não tinha a mobilidade e o convívio necessário com os seus amigos. O verão corria há três semanas e os turistas pareciam fugir das praias e refugiar-se nas montanhas, nos lagos, albufeiras e rios. As praias ameaçavam tornarem-se sobrelotadas. Mas a adrenalina também podia ser alcançada de forma inesperada. No Domingo passado ele e o seu filho haviam ficado em casa, porque o filho continuava a estudar, daquela vez para o exame de Biologia. Nem sempre tinha vontade para estudar. A mãe e a filha tinham ido passar o dia na natureza. Havia um almoço ao ar livre para comemorar um aniversário. O seu filho também queria ter ido à festa, mas o estudo forçou-o a quedar-se por casa. O seu pai fez-lhe companhia e aproveitou para colocar a leitura em dia. Por outro lado, não se sentia confortável numa festa com 30 pessoas em pleno período de pandemia. Ainda só tinha a primeira dose da vacina e nada era garantido. Claro que algum dia as pessoas teriam que voltar a conviver, pois faz parte da condição humana, maioritariamente em espaços abertos e com alguns cuidados que antes da pandemia nunca existiram.

João Pires

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Books, short story

Eram 10 horas da noite

João Pires

Eram 10 horas da noite. Tinha acabado de sair debaixo do chuveiro. Daquela vez havia demorado mais que o habitual, pois esteve as esfregar os pés manchados de verde, impregnados de clorofila. A relva acabada de cortar libertava tinta verde, que manchou a planta dos pés, tal ogre verde das florestas.

Durante o final da tarde, foi aparar as pontas do relvado que ultrapassavam todos os limites, cuidou de retirar algumas ervas daninhas, para depois proceder ao corte da relva. As ervas daninhas teimavam em reproduzir-se nos locais não desejados. Prejudicavam o crescimento da relva, sufocando-a, podiam abrigar insectos indesejados e competiam por nutrientes, luz e água. Por último aquele tapete verde de relva ficava pontuado por uma planta aqui, outra ali, que alteravam o aspecto visual. Muitas das vezes, as ervas daninhas desenvolviam-se mais rápido que a própria relva, o que se tornava numa competição qual impossível de vencer, quase fora do controlo. Ele havia declinado a possibilidade de usar herbicida, pois os animais de lá de casa corriam o risco de ficarem doentes. Preferia passar algum tempo a perseguir cada erva daninha, que muitas vezes estava dissimulada no relvado. No entanto havia uma zona em que eram mais as ervas daninhas de folha larga do que propriamente a relva, que se encontrava totalmente sufocada, por falta de luz.

Como havia rejeitado o controlo químico, passava boa parte do tempo a arrancar as ervas daninhas, munido de luvas de jardinagem e com a ajuda de um extractor manual. Por vezes as ervas daninhas tomavam proporções gigantescas, pois foram passando despercebidas de ano para ano. Ao arrancar a planta, dava-se conta do tamanho da raiz.

Para além dos estragos provocados pelas ervas daninhas, o cão costumava urinar, escolhendo sempre uma zona saudável e bonita do relvado. Porque é que ele não escolhia uma erva daninha? Podia também urinar na relva que também crescia fora do relvado, por entre os espaços dos paralelos. Tinha bom gosto, podia dizer-se, mas só se fosse para o próprio animal.

Sempre que ele via o cão a levantar a pata no meio do relvado, ele dava um grito como que para o assustar e demover de tal atitude, mas o animal não percebia e continuava relaxadamente a urinar sobre a relva. No dia seguinte aquele pedaço de relva que havia sido encharcado com urina de cão, começava a amarelecer até acabar por morrer. Assim, o relvado para além de contar com as ervas daninhas, tinha que levar com a urina de cão transformando-o num queijo suíço, cheio de buracos simbolizados pelos pedaços de relva amarela dispersos.

Durante o início da tarde não foi possível descer para fazer jardinagem, pois fazia um calor abafado, apesar de a temperatura ter subido até aos 22º. Por tal motivo, havia descansado um pouco, aproveitou para ler mais um pouco do livro que tinha em cima da mesa-de-cabeceira. De facto começava a chegar à conclusão que a leitura antes de adormecer não era nada produtiva, apenas servia para chamar o sono. Havia vários livros em suspenso. Deixou na mesa-de-cabeceira um livro de melhoramento pessoal, tendo lido cerca de 20%. Era interessante e apontava para vários aspectos do dia-a-dia, em que ele poderia melhorar, mas havia outros temas que lhe interessavam, pelo que aquele livro ficou a aguardar a sua vez para ser retomada a leitura.

Naquela manhã de sábado foram os dois passear com o cão como habitualmente, durante o fim-de-semana. Costumavam para numa pequena esplanada, onde o cão podia ficar ao lado dos donos tranquilamente. No entanto o Charlie gostava de cumprimentar todas as pessoas à sua volta. Começava a abanar a cauda e como que a sorrir, abrindo a sua boca e deixando cair a língua rosada, chamava a atenção das pessoas que estavam nas outras mesas. A sua pelagem preta e branca chamava a atenção, bem como o seu porte de 30 quilos. Por outro lado, era doido por comida. Cada migalha caída no chão à volta das mesas era motivo para puxar pela trela que estava presa à cadeira da sua mulher, para tentar chegar lá. Claro que as pessoas se tentavam a dar-lhe um pedaço de pão ou qualquer outro alimento que estivessem a comer. Mas a dieta do Charlie era quase perfeita de acordo com os conselhos dos veterinários. Só comia ração seca, o que lhe permitia manter um porte elegante e o pelo brilhante. Só quebrava o jejum de alimentos mais tentadores, quando eles estavam distraídos. Ainda naquele dia, estavam uns peitos de frango a descongelar em cima do balcão da cozinha. Ela perguntou se eram dois ou três peitos de frango. A embalagem mostrava um espaço vazio, dando a ideia que um pedaço de frango havia desaparecido misteriosamente. Por outro lado, sempre que o cão fugia para a rua, partia à procura de comida. Não importava que tido de comida fosse, apenas queria comida. Dirigia-se sempre a um abrigo de gatos onde havia ração para gatos e arroz cozinhado. Por vezes vomitava porque havia comido algo fora de prazo inclusivamente para cães.

excerto do novo romance de João Pires

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Caminho da vida

Caminho da vida
Que se faz por veredas
Erva seca e arvoredos
Arbustos vivos

Vejo o fim do caminho
Mas por artes mágicas
Se desdobra em nova curva
Se não suceder coisa trágica

Erva do monte
Cresce sem cuidados
Oferece o seu melhor verde
Para quem percorre os trilhos

Qual ninfa caçadora
Surges do meio da natureza
Prendes-me com o teu olhar
Numa mirada de surpresa

Debaixo da ramada
Declaro o meu amor
Ao anjo com asas
Que surgiu no pico do calor

Talvez fosses um sonho
Que surgiu pelo caminho
Vestido de verde
Sempre em renovação
Para alimentar o coração

Faz-te ao caminho da vida
Sem hesitação
Não importa se curta ou comprida
Mas aprecia a natureza com emoção

13-06-2021

João Pires

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