Uncategorized

Gémeos semideuses

Cavalos indomáveis
Corpos nus
Gladiadores poderosos
Correm na arena dos incautos

Pó no ar
Areias que saltam da biga
Cavalos que puxam os carros
Carros de guerra na rena

Multidão exulta de clamor
Brados sem resposta
De quem jaz na arena
Quedo e nu

Homens e gladiadores
Saltam para a arena
Salvando a dezena
Num rapto seu igual

Gémeos semideuses
Irrompem a multidão
Salvam as filhas da escravidão
Libertam mulheres da tirania

01-07-2022

João Pires

imagem: Rubens (1577-1640), «O rapto das filhas de Leucipo», 1618.

Standard
poesia

Vendi a alma ao diabo

Vendi a alma ao diabo
vestida sem pecado
pendurada numa cruz
de madeira debaixo da luz

Vendi a alma ao diabo
num dia de céu cinzento
estava sem pensamento
agitado e turbulento

Vendi a alma ao diabo
mas disse que a queria de volta
arrependi-me sem escolta
pedi por favor para a devolver
chorei um rio de lágrimas

Pedi a alma ao diabo
por tudo deste mundo
por conta do outro
quero a minha alma
dentro de mim

Fui lá de noite
pelos campos fora
recuperei a minha alma
da cruz de madeira
mas penei a noite inteira

Não vendas a tua alma ao diabo
nem a ninguém
só o teu coração te quer
como ninguém

22-05-2022

João Pires

foto: Amber Bracken

Standard
poesia

No fabulo ambiente da tua janela

No fabulo ambiente da tua janela
aberta e desprotegida
anseio imaginações tentaculares
debaixo da magna ramada verde albergadas

Imagino que vives ainda
por detrás daquela janela
sem vidro nem batente
donde se soltam gemidos de desejo

Numa noite de desejo obsceno
entro que nem devasso
pela tua janela adentro
apenas para te espeitar

Mas logo te desejo encontrar
ouvir de perto teus gemidos intensos
se te sussurrar vontades lascivas

Somítico nas palavras
quero ver-te à luz da janela
naquela noite de luar
para te desejar de corpo inteiro

As tuas erógenas zonas
sobressaem da camisa
à luz do luar
em voluptuosos movimentos

Desejo-te a cada centímetro
que me aproximo de ti
sinto a tua respiração
no alto daquela janela sem protecção

Tomo-te nos meus braços
rodeio-te pela cintura
desfazes-te em suspiros
beijamo-nos longamente
no fabulo ambiente da tua janela

10 de Maio de 2022

João Pires

Standard
poesia

Pudera eu

Pudera eu
adivinhar a linha do horizonte
entre o céu e o monte
entre o laranja do sol poente no mar

Pudera eu saber
o que está para além daquela linha
fio ténue da imaginação
que separa a razão do coração

Cordas, estacas e outras amarras
que prendem à terra
senão navegaria até Inglaterra
sulcando ondas e vagas

Ouvir o ronco da sirene
em noite de bruma incerta
avistar a luz do farol
será a atitude mais certa

Pudera eu
apreciar a luz do por do sol
todos os dias

8-5-2022

João Pires

Standard
poesia

Vem brincar comigo

Vem brincar comigo

para o parque dos poetas

onde pousam borboletas

com as palavras mais belas

Sentaremos na relva húmida

do imenso jardim

para sentir o sol

e a tua pele sobre mim

Palavras que deslizam como dedos

na poesia de dois corpos que se tocam

passeios, jardins e labirintos

para te procurar em cada recanto

Olhares que se trocam

numa tarde de Verão

provocam suave sensação

que só termina no final da estação

Vem brincar comigo

até ser fim

3 de Maio de 2022

João Pires

Standard
poesia

Princesa encantada

Princesa encantada
vens de noite
brilhar à luz da lua
para me enfeitiçar
com o teu sorriso

Pousas suavemente teus lábios
correspondo docemente com os meus
dá-me a tua poesia
entrego-te a minha dança

Esta noite quero sentir o teu perfume
das pétalas vermelhas de paixão
vem dançar comigo
ao som do mais belo poema

Vamos rasgar até ao infinito
afagar as estrelas
sorrir com os mais belos sonhos
toca-me com os teus cabelos
desperta em mim os mais esquecidos encantos

Vamos fazer poesia
enquanto a noite sussurra
brisas de amor

02-05-2022

João Pires

Standard
poesia

O caminho para a liberdade

O caminho para a liberdade

Portas que se abrem para o céu
árvores de lília cor
que se ajoelha à tua passagem
cravos que secaram
depois da anunciada liberdade

Onde anda a liberdade prometida?
fugiu para outras paragens
encontro paz
nas asas do teu pensamento

A liberdade mora cá dentro
ninguém me tira o pensamento
cultivei o discernimento
nem que recorram ao armamento
resistirei com palavras soltas

Sobreviverei
no mundo onde tudo é possível
na palma da mão
basta clicar no botão

Mas sinto-me preso
sem qualquer liberdade
não era essa a minha vontade
quero, fugir, saltar, voar

Prendam-me
numa cela onde há liberdade
para sonhar
com as palavras que um dia irei escrever
com os poemas que irei soltar
em liberdade

Será esta a passagem para a liberdade
vejo céu cinzento
o ar está macilento
mas a mim ninguém tira
esta vontade de libertar
o aprisionado pensamento

23-04-2022

João Pires

fonte: https://www.facebook.com/joao.pires.escritor

Standard
poesia

Asas do teu pensamento

Nas asas do teu pensamento
flutuo em nuvens de algodão
daqui até ao firmamento
pairando na abóbada celeste

Naquela paisagem agreste
acontece suave brisa
nem um minuto esmoreceste
para atingir o pináculo
serra de vegetação rasteira

Posicionada tal como o coruchéu
no alto do campanário
donde tocas o céu
envolta em solto cenário

Serra de belo manto verde
pintalgada de outras cores
com a urze a espalhar lilás
amarelo vivo da flor de carqueja
que o sol todos os dias beija

Volto aos pensamentos
que um dia
já voaste nas nuvens brancas
do imenso céu azul

15-04-2022

João Pires

Standard
poesia

Nas ripas do chão

Nas ripas do chão
Sinto dois corpos
Que se abraçam
Como nunca havia

Nas tábuas de madeira
Ao lado do cesto de videira
Espalham folhas de roseira
Vermelhas de paixão

No chão sem beira
Sonho com o teu cabelo
Com a cor do fogo
Longos pensamentos sedutores

Te abraço sem soleira
Junto aos cadernos
Da minha poesia
Te beijo de alegria

No cesto de videira
Cabem dois corações
Cheios de emoções
Até vazar a lua cheia

Embalo-te nas palavras
Do suave amor
Com grande fulgor
De suster a respiração

12-04-2022

João Pires

Standard
poesia

As tuas Ondas

Caminho à beira das tuas ondas
Enquanto olho para o horizonte
Debaixo das nuvens pesadas
Em forma de rinoceronte

Mais longe está o barco
Ancorado no pacato cais
Solta fumo pela chaminé
Como quem está preparado para partir
Penso para comigo
Ficas ou vais?

Caminho descalça pela areia
Feita de reflexos da água salgada
Debaixo do céu laranja
Serei eu a tua amada?

Do barco me trazem novidades
Com um apito sonoro
Se dizem verdades
Naquele barco vou entrar
Para em seguida te conhecer

Tu que vieste da guerra
Que ninguém quer ver
Marinheiro de alto mar
Vieste para me amar

20-Março-2022

João Pires
Standard